sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Textos Complementares sobre Rolezinhos

TEXTO 4

Rolezeiros querem criar associação para promover trabalhos sociais

Wellington Ramalhoso

Do UOL, em São Paulo
13/02/201406h00 > Atualizada 13/02/201422h09

O grupo de jovens que tem representado os organizadores de 'rolezinhos' em encontros com autoridades em São Paulo estuda formar uma associação. Segundo o produtor Ricardo Sucesso, já existe até um nome favorito para batizar a entidade: Associação do Rolezinho A Voz do Brasil.
"A brincadeira vai virando coisa séria. A gente está colhendo os documentos necessários para criar a associação", afirma Ricardo, produtor do funkeiro MC Chaveirinho. Moradores de Cangaíba, na zona leste de São Paulo, ambos têm participado de reuniões com representantes da Prefeitura de São Paulo e do Ministério Público para tratar dos 'rolezinhos' promovidos por jovens da periferia.
Segundo o produtor, cerca de 60 jovens estão envolvidos nas conversas sobre a formação da associação, que não se limitaria a cuidar dos 'rolezinhos'. "O objetivo é ajudar o próximo, envolver os jovens em projetos sociais". Ele afirma ser necessário mostrar aos adolescentes que há vida além da popularidade nas redes sociais.
O produtor conta que os rolezeiros vêm sendo assediados por partidos políticos, interessados na popularidade dos jovens. Ele mesmo, em sua conta no Twitter, diz ser assessor político, além de apresentador, locutor, produtor e empresário de artistas e shows. No entanto, declara que o grupo não tem ligações com partidos. "Ninguém quer ser candidato a nada. A associação é suprapartidária".

ANÁLISE

Nas últimas semanas, Ricardo Sucesso diz que conseguiu, com seus colegas, convencer jovens a desmarcar 30 rolezinhos em shoppings. Segundo ele, a intenção é evitar encontros nos centros comerciais "até segunda ordem".
Rafael Paixão, estudante de 17 anos morador de Itaquera --zona leste de São Paulo--, afirma ter seguido conselho de Sucesso e cancelado um 'rolezinho' que havia marcado no Shopping Aricanduva, na zona leste. "Como a gente não falou com o pessoal do Aricanduva ainda, a gente resolveu desmarcar". O objetivo do cancelamento, segundo Paixão, é "causar uma boa impressão".

Em busca de alternativas
Os representantes dos rolezeiros têm orientado os jovens a marcar encontros em praças e parques. Está agendado para o sábado (15) um rolezinho no Parque do Ibirapuera, na zona sul de São Paulo.
Mas Ricardo Sucesso diz que os adolescentes voltarão a agendar 'rolezinhos' nos shoppings caso o poder público e os centros comerciais demorem a apoiar alternativas de lazer. "Se enrolarem, [o movimento] pode explodir de novo".
Em sua opinião, a abertura de clubes municipais nos bairros de São Paulo será inócua caso a prefeitura não monte programações com atividades como shows e oficinas. Na tarde desta quinta (13), o prefeito Fernando Haddad (PT) recebeu líderes dos "rolezinhos". Segundo Ricardo Sucesso, o prefeito prometeu apoiar os jovens.  Administração municipal e rolezeiros deverão discutir propostas em um encontro agendado para o dia 21.
            Na semana passada, jovens das zonas leste, sul e norte apresentaram propostas de atividades a representantes do Shopping Metrô Itaquera. Segundo Ricardo Sucesso, os rolezeiros sugeriram a realização de oficinas, palestras e exposições no local.
            Por meio de sua assessoria de imprensa, o shopping diz esperar o detalhamento das propostas para decidir se apoia alguma atividade. Ricardo Sucesso afirma, porém, que o shopping, o único a recebê-los até o momento, informou aos rolezeiros que só tomará decisões em conjunto com outros shoppings.
            A Associação Brasileira de Shopping Centers informa estar disposta a receber os jovens e a intermediar o diálogo com os centros comerciais, mas afirma que não foi procurada pelos representantes dos 'rolezinhos'.


http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2014/02/13/rolezeiros-querem-montar-associacao-voltada-a-projetos-sociais.htm. Acesso em 14 fev. 2014.


Texto 5
'Rolezinhos' têm raízes na luta pelo espaço urbano

James Holston, professor da Universidade da Califórnia, prevê novos protestos

Antropólogo estuda a periferia de SP desde os anos 80 e diz que reação da PM e dos shoppings aos 'rolês' foi exagerada
ELEONORA DE LUCENA DE SÃO PAULO

Como os protestos de junho passado, os "rolezinhos" são manifestações de uma cidadania insurgente cujas raízes estão na luta pelo espaço urbano que ocorre há décadas no Brasil. A análise é do antropólogo James Holston, professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA).
Pesquisador da periferia paulistana desde os anos 1980, ele avalia que a politização do movimento foi provocada pela repressão exagerada e pouco inteligente.
Autor de "Cidadania Insurgente" (Companhia das Letras, 2013), Holston tem ligações familiares com o Brasil e passa temporadas em São Paulo. Nascido em Nova York, estudou também filosofia e arquitetura.
Nesta entrevista, concedida por telefone desde os EUA, ele comenta o consumismo cantado no funk ostentação, trilha de "rolezinhos": "Do ponto de vista político, significa o triunfo de um capitalismo deslumbrado, como ocorre no Brasil nos últimos 20 anos em todas as classes".

Folha: Como o sr. avalia os "rolezinhos"?
James Holston - Os "rolezinhos" existem há tempos nas periferias. Frequentei muito o shopping Aricanduva por causa de minhas pesquisas na zona leste. O shopping é a praia do paulistano. Essa juventude não está excluída dos shoppings. Estão entre os melhores fregueses.
A diferença foi o número de pessoas. Deu medo nos lojistas. Passear, brincar, paquerar nos shoppings se politizou agora por causa da repressão policial e da reação dos donos de shoppings. Reprimir nos primeiros "rolezinhos" no fim de dezembro foi uma reação exagerada, pouco inteligente e pouco ágil. O "rolezinho" nunca teve esse aspecto politizado. Agora virou movimento, uma expressão de conquista de espaço.

O sr. estudou os movimentos nas periferias de São Paulo no século passado. Quais são as diferenças em relação ao que ocorre hoje?
Por décadas, o coração da politização das classes mais humildes do Brasil foi conquistar o espaço, o terreno da casa, o bairro, a autoconstrução, a luta. As classes altas também ocupam, conquistam, defendem, segregam seus espaços. As classes trabalhadoras fazem isso conquistando novos direitos de cidadania. Isso muitas vezes afronta as classes médias.
Há em São Paulo uma tensão em torno do espaço que há anos não existia. Antes as classes dominantes dominavam completamente. Agora, não. As classes mais humildes têm noção do direito de ocupar, de viver, de circular.

Como o sr. explica o funk ostentação, espécie de trilha sonora dos "rolezinhos"?
É uma releitura paulistana do funk carioca, passando pela Baixada Santista. A pauta mudou da criminalidade para o consumo.

Essa ideia de consumismo exacerbado não se choca com a herança política de luta por espaço, que era mais coletiva?
Claro. O consumo na autoconstrução nos bairros nos anos 1970, 1980, 1990 era mais coletivo: todo mundo trabalhando. Esse consumo de hoje é também de autoconstrução, mas, personalista. Do ponto de vista político, significa o triunfo de um capitalismo deslumbrado, como ocorre no Brasil nos últimos 20 anos em todas as classes.

E o que mostra a reação aos "rolezinhos"?
As elites sempre reprimiram as manifestações populares por conquista de espaço. A mensagem é de que o pobre tem que saber o seu lugar; pode circular humildemente, fazendo o seu serviço. Mas, se circula com ostentação, mostrando que é dono de sua própria vida, ofende e afronta a elite brasileira.

Há ligação com as manifestações de junho?

Há uma articulação politizada nos dois casos. A polícia tem que assumir uma culpa muito grande, pois teve uma reação exagerada. Os "rolezinhos" são continuidade dos movimentos de junho, pois têm a ver com ocupação de espaço, com circulação.
Há diferenças; não há homogeneidade. Os "rolezinhos" são mais focados no consumo, na produção cultural, têm menos organização política. Mas podem vir a ter.

Quais os reflexos políticos dos "rolezinhos"? Eles vão crescer ou murchar?

É difícil prever. A rapaziada dos "rolezinhos" não quer ser politizada em demasia. Querem voltar à praia do shopping, para paquerar, zoar. Não quer dizer que não possam evoluir, ou outros grupos possam adotar a tática. Acho que isso vai acontecer. Vai ser um ano quente e deveria ser. Porque as reivindicações de junho não foram atendidas e também não sumiram. O que vai acontecer com toda essa energia? Com a chegada da Copa, vai esquentar.

O gigante acordou?

Muitos disseram isso. Outros, que a periferia nunca dormiu. A cidadania insurgente está sempre presente. Esquenta e esfria dependendo de circunstâncias impossíveis de prever. O Brasil vibra nos últimos 50 anos de cidadania insurgente. É uma coisa ótima para sacudir uma sociedade de muita desigualdade.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/148411-rolezinhos-tem-raizes-na-luta-pelo-espaco-urbano.shtml. Acesso em 16 de fev. de 2014.


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