As mídias digitais
vão, aos poucos, se consolidando como um meio eficiente no processo
ensino-aprendizagem, tornando a prática pedagógica muito mais dinâmica e
interessante. Ao longo dos últimos anos, os especialistas são unânimes em
afirmar que tão importante quanto ler e escrever é alfabetizar as crianças nas
mídias digitais.
Isso significa que o
uso adequado dessas ferramentas não só incentiva a reflexão sobre as produções
das mídias, como também confere a garantia dos direitos da infância e juventude
e protege os pequenos das ameaças virtuais.
Mas será que a escola
e a sociedade têm cumprindo com o papel de desenvolver nos jovens essas
habilidades? Para Joana Peixoto, doutora em Ciências da Educação pela
Universidade Paris, com especialização em Informática e Educação, é necessário
um empenho maior no sentido de integrar o uso das mídias aos objetivos
pedagógicos. “Isso é feito, mas de forma muito tímida.”
Na opinião de Joana, os projetos escolares não priorizam o
desenvolvimento das funções mentais e ainda estão centrados no modelo
tradicional de conteúdo, baseado na repetição e no armazenamento, ao invés de
promover o pensamento auto-crítico.
Ela propõe que as
mídias estejam inseridas dentro de uma concepção que priorize o preparo do
aluno para o mundo contemporâneo, deixando de colocá-lo à mercê do comodismo e
do consumismo.
A especialista ressalta também que a utilização adequada e planejada das mídias
contribui qualitativa e quantitativamente para o processo ensino-aprendizagem,
tornando as aulas mais participativas e envolventes.
Com uma opinião um pouco mais pessimista, o especialista em
Marketing, Comunicação e Mídia Digital, Leonardo Diogo Silva enfatiza que a
alfabetização para as mídias digitais e temas relacionados à tecnologia ainda
tem sido pouco explorada. Para ele, o essencial é expandir esse trabalho.
Leonardo destaca também que
atualmente tem sido feito muitos incentivos na aquisição de equipamentos,
mas poucos na capacitação dos professores. “Não existe ainda um trabalho de
formação e tão pouco materiais que preparem o professor sobre como orientar o
seu aluno com as mídias. O educador só lida com isso em cursos avançados.
Existe uma tentativa de conscientizar os educadores com vários debates, porém
com pouca ação”, declara.
A promoção de disciplinas focadas em
como se comunicar com as plataformas midiáticas e sua criação de modo
colaborativo é uma das sugestões do publicitário. Para ele, esse é um caminho
inevitável e o professor tem que mostrar o que é possível fazer, de fato, com
todas as opções digitais. “Tem que educar para utilizar, não para reprimir.
Note que não se trata de informatizar o ensino, mas de desenvolver processos de
ensino que facilitem a compreensão do aluno.”
Para tanto, segundo
ele, uma das exigências fundamentais é ter um professor que esteja preparado
para utilizar pedagogicamente as mídias no processo de ensino-aprendizagem.
Leonardo defende que
as crianças precisam ser capacitadas para lidar com a falta de segurança na
internet. “Tem que ser esclarecido o que é crime e as atitudes que necessitam
ser tomadas em relação a isso. A criança não consegue mensurar e ver a dimensão
dos atos”, destaca.
Orientação sempre
Joana Peixoto, doutora em Ciências da
Educação pela Universidade Paris e especialista em Informática e Educação,
acrescenta a necessidade de legislações mais rígidas, a exemplo do que é
realizado em outros países, para evitar situações de exposição mercadológica e
assédios.
De acordo com ela,
muitos países já proíbem a associação da figura infantil em determinados
produtos e se responsabilizam para evitar que isso ocorra.
Para Cláudia Helena
dos Santos Araújo, mestre em educação, uma das soluções passa pela criação de
políticas públicas com foco na escola já na Educação Infantil. Também são
necessários critérios mais rígidos nas redes sociais, como solicitar a
comprovação da idade do indivíduo, assim como usar os recursos da própria mídia
para educar. "As crianças de hoje são curiosas e evoluídas. Portanto, um
jogo que consiga estimular isso, com certeza, irá conquistá-las. Temos muito
que avançar na criação de softwares educativos, que auxiliem nesse processo de
desenvolvimento em todos os sentidos."
Crianças driblam controle
Apesar do esforço em
proteger as crianças, o levantamento do Tic Kids online Brasil revelou que
possuir contas em redes sociais é uma atividade disseminada entre o público
infantil, muito embora a maioria deles determine que a idade mínima seja de 14
anos.
Segundo o relatório,
42% das crianças entre 9 e 10 anos possuem contas em redes sociais. Para a
faixa etária de 11 e 12 anos, esse índice sobe para 71% e para quem tem 13 e 14
anos, chega a 80%. Ter mais de um perfil soma 27% do total. Cientes da
proibição, mais da metade (57%) costuma mentir sobre a idade.
Outros dados apontados é que metade delas possui mais de 101 amigos nesses
sites, onde diversas informações são publicadas pelos pequenos. Do total de
entrevistados, 86% confessou compartilhar fotos que mostram seus rostos; 13%
revelam seu endereço e 12% até o número do telefone.
E o mais grave é que
nem sempre o contato é restrito à internet e aos conhecidos. Dentre as crianças
de 9 a 10 anos, 5% afirmaram ter conversado com alguém que não conheciam
pessoalmente. E quanto maior a idade, mais esse índice sobe: entre 11 e 16
anos, por exemplo, 23% contaram com desconhecidos. Dentre estes, 23% relataram
ter encontrado com essas pessoas.
“Pais têm que educar”
Mãe de Gabriela e de
Pedro dos Santos Araújo, de 6 e 4 anos respectivamente, Cláudia Helena diz que
procura orientar os filhos, ainda pequenos, sobre como se comportar nas redes
sociais ou quando estão navegando na internet.
Na opinião dela, é
importante que as orientações e o acompanhamento sobre o uso das mídias
aconteça desde cedo. “Não é necessário monitorar no sentido de vigiar. Tem que
educar para que a criança compreenda o que pode ou não pode ser divulgado nas
redes”, salienta.
A mestre também
ressalta que muitas famílias não entendem o papel das mídias e a importância de
alfabetizar os filhos para usá-las. Segundo ela, os próprios pais estimulam as
crianças a expôr suas vidas íntimas e alguns sequer sabem o que elas estão
fazendo ou vendo na TV. “O risco de você perder o seu filho dentro da sua
própria casa é grande, e os pais têm dificuldade de entender o uso dessas
ferramentas.”
A
professora também aconselha que os pais não deixem seus filhos conectados o
tempo todo. "Não é saudável e tão pouco salutar perder o processo de
desenvolvimento e comprometer o envolvimento e o diálogo com a família e os
amigos. Há casos em que as crianças se fecham e não conseguem mais se
socializar", esclarece.
Outros
conselhos são não permitir a abertura de contas nas redes sociais bem como
regrar o tempo de uso e não instalar computadores e televisores nos quartos.
"As crianças ainda não têm maturidade para saber o que pode publicar ou
não, e com estas ferramentas nos quartos fica mais difícil fazer esse controle.
Portanto, não é recomendável."
Números
Principais interesses dos usuários de 9 a 16 anos
quando acessam a internet:
82% usaram a internet para trabalhos
escolares;
71% dos pais afirmaram que os filhos
utilizam a web com segurança;
68% visitaram um perfil/página de uma rede
social;
66% assistiram vídeos;
56%das crianças e adolescentes que têm
perfil em alguma rede social apresentam a conta aberta ou apenas parcialmente
privada;
54% jogaram games com outras pessoas na
internet;
54% usaram mensagens instantâneas com
amigos/contatos;
Pesquisa
feita com 1,6 mil crianças e adolescentes entre abril e julho de 2012
Atividades na internet de acordo com a
assiduidade:
53% para acessar as redes sociais e enviar
mensagens instantâneas
39% envia e-mails e faz postagens em sites
13% usa para realizar atividades escolares
Faixa etária
pesquisada: de 9 a 16 anos
Fonte da pesquisa
:TIC Kids Online Brasil feita pelo Centro de Estudos sobre as Tecnologias da
Informação e Comunicação (Cetic.br)
Monitoramento dos Pais na internet X Invasão de Privacidade ?
Nos últimos dias diversos casos de crimes cibernéticos
contra crianças e adolescentes foram noticiados pela mídia. Na maioria dos
casos o monitoramento do uso da internet pelos
próprios pais colaborou para a identificação do crime e do criminoso.
É dever dos
pais educar
os filhos, e esse princípio não deve ser negligenciado nas relações
virtuais. Antigamente os pais queriam saber quem eram os amigos dos filhos, por
onde andavam e o que faziam.
Nas atividades convencionais isso era muito mais fácil do que nas relações virtuais dos
filhos. Hoje não perguntam “quem são seus amigos do Facebook”, “em quais sites
você navega” ou com “quem conversa no chat?”.
Para alguns pode parecer ridículo, mas atitudes como essa
podem evitar grandes dores de cabeça além de agressões físicas e morais aos
filhos.
O monitoramento dos pais sobre os filhos não prejudica sua
privacidade por razões como:
1. É dever legal dos pais educar os filhos. Dever não quer
dizer que possuem somente o direito, mas a obrigação. Essa educação deve ser
estendida ao mundo virtual. O Código Civil pátrio, registra em seu
artigo nº 1.634 que:
Art. 1634. Compete aos pais, quanto à pessoa dos filhos
menores:
I. dirigir-lhes a educação e criação.
2. Os pais respondem na esfera
cível pelos atos praticados pelos filhos. Caso o adolescente venha a cometer um
crime, como por exemplo, a difamação (Art. 139 do Código Penal), a vítima
poderá buscar a penalização e desagravo pelo ato, contra os pais. Poderão assim
responder criminalmente e serem responsabilizados também pela reparação civil.
Os tutores e curadores assumem a mesma responsabilidade. Recorremos mais uma
vez ao Código Civil, agora no artigo nº 932, sobre responsabilidade dos pais:
Art. 932. São também
responsáveis pela reparação civil:
I – os pais, pelos filhos
menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia;
II – o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem nas
mesmas condições;
Com certeza mesmo para esse controle, que é dever dos pais.
Existe um limite. A intimidade do filho deve ser preservada, e cada pai e mãe
deve ter a consciência de saber identifica-la. O objetivo desse controle deve
ser tão somente com o propósito de garantir a sua segurança, e não deve ser
utilizado como forma de repreensão á sua individualidade.
Educação virtual
Os pais devem orientar seus filhos do mesmo modo que o
fariam em relação ás atividades e relacionamentos convencionais. O diálogo deve
preceder o uso consciente da internet. Algumas dicas que podem ajudar no uso
correto da internet
por crianças
e adolescentes:
•Evite disponibilizar o uso do computador em local que não
seja visível pelos pais. O computador na sala é melhor do que no quarto da
criação.
•Crie regras de uso do computador. Existem softwares que
podem lhe ajudar nessa tarefa, como limitando o acesso a sites de pornografia,
delimitando horários de uso, etc.
•Ensine sobre o uso correto da internet também em celular e
tablets. Um correto acompanhamento também desses equipamentos pode colaborar na
segurança dos filhos.